Mulher expulsa da piscina | Body shame e o corpo feminino como tabu

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Nota para futuras leituras deste post: 
NÃO SOU EU a rapariga das fotos. Como refiro durante o post. Isto, felizmente, não me aconteceu a mim. Não custa ler o post se pretendem fazer um comentário sobre o assunto, referindo-se como se eu fosse a pessoa da foto, não sou. Leiam, antes de comentar por só verem as imagens e o título (que só por si, já deixa implícito que não sou eu, nesse caso o título seria "fui" expulsa em vez de "mulher" expulsa). 

Imaginem que vão para uma piscina, no condomínio onde vivem. Vestido levam um fato de banho, o mais normal possível. Imaginem que estão tranquilamente na beira da piscina, com um grupo de amigos e, alguém da gerência do espaço se aproxima e vos diz que têm duas opções: ou vestem uns calções ou têm que sair do espaço porque, o vosso fato de banho (o mais normal possível) e as curvas do vosso corpo, podem excitar os jovens adolescentes no espaço. 
Como se sentiriam?
Parece surreal nos dias que correm, mas é verdade e aconteceu a Tori Jenkins, no Tennessee. Para não alimentar duvidas à imaginação, aqui ficam as fotos da mulher e do dito fato de banho. Cor-de-rosa, o mais simples que pode have e, arrisco-me a dizer, com umas quase "cuecas da avó", como costumamos dizer.


Ainda assim, alguém considerou que este fato não era apropriado, que poderia excitar os adolescentes e que, portanto, a jovem mulher teria que vestir calções ou abandonar o espaço - no seu próprio condomínio e pelo qual paga uma taxa de utilização. Como se não bastasse, o namorado conta que a chamaram para uma sala, onde a obrigaram a ver-se ao espelho e fazer algumas poses para perceber que aquilo era provocatório. Foi lhe dito que, como o seu corpo tem "muitas curvas", porque tem um rabo maior, que deveria ter cuidado para não provocar os jovens (really?!). O namorado conta que nunca a viu chorar tanto, envergonhada de si e do seu próprio corpo, nem teve coragem para encarar os amigos no resto do dia.
A internet encheu-se de comentários que falam de body shame e rape culture. Não me surpreende. Aliás, surpreende-me que em vez de andarmos para a frente, andemos para trás. Sempre pensei que com a evolução dos tempos - e supostamente das mentalidades - um dia víssemos as burkas erradicadas, mas por este andar, qualquer dia vamos mesmo é passar a andar todas com uma, não vá o nosso dedo mindinho do pé esquerdo excitar um homem, que coitados, logo desde tenra idade não podem ser provocados pelo corpo feminino, esse bocado de mau caminho e de perdição.
Foda-se, a sério?
É assim que querem educar os vossos filhos (e filhas). Em vez de ensinarem aos homens de amanhã que devem respeitar o corpo feminino, que uma mulher deve ser vista com o mesmo respeito que um homem e não apenas como um pedaço de carne, um objecto sexual. Que não interessa se a mulher está com uma roupa conservadora ou com um bikini, isso não deve mudar o respeito a que qualquer pessoa tem direito? Que uma mulher usar uma saia curta não faz dela puta. Que uma adolescente com uma blusa decotada não estava a provocar para ser assediada?
Em vez disso, cada vez reprimem mais a imagem feminina, a mulher não deve usar roupa assim ou assado para não provocar. Mais ridículo ainda, quase se deve envergonhar das curvas do seu corpo, por estas provocarem os homens, coitados! Isto, este tipo de situações, tem sim tudo a ver com body shame e tem sim tudo a ver com rape culture. Um jovem, futuro homem, que não aprende a conviver com o corpo da mulher sendo respeitado, está sim a ser incentivado a essa cultura, ainda que ele nunca viole uma mulher, que fique pelo assédio verbal ou simplesmente com os pensamentos machistas na sua cabeça. E mais tarde, há uma grande probabilidade de aos filhos desses homens e dessas mulheres ser incutido a mesma linha de pensamento. É um ciclo vicioso. 
Já há uns tempos falei aqui da polémica de que cada vez mais se fala, da amamentação em público, em que contei como uma mãe foi proibida de amamentar o filho na maternidade, porque estava na hora da visita dos pais e podia provocar os homens (podem ler o post aqui), mais uma vez o corpo da mulher a ser sexualizado quando, meus caros, a principal função do seio feminino é essa mesma, a de amamentar (um bebé) e não um objecto sexual de filme porno. 
Isto é ridículo, isto deixa-me triste e irritada, enquanto mulher e enquanto ser humano. E mais do que triste e irritada preocupa-me... Preocupa-me os jovens que estão a ser "educados", os que amanhã serão homens e mulheres. Sempre quis ter uma filha. Não sou mãe ainda, mas preocupa-me, se um dia for mãe de uma menina, o mundo em que ela vai crescer e os males a que vai estar exposta, por simplesmente nascer mulher. E às vezes nem sei, se preferia ter um menino ou menina ou nenhum. Este mundo é mau, é cruel... E cada vez está pior.


P.s - Deixo só uma questão, a cultura machista, essa que defende que a mulher se devia vestir de certa forma para não provocar o homem, está a apresentar o homem como um ser inferior sem sequer se dar conta. Esse mesmo tipo de mentalidades que, frequentemente, vêem o homem como o sexo forte. Então se o homem é assim tanto o sexo forte, superior à mulher, não deveria ser também forte para resistir às supostas tentações? Ou o orgulho é forte, mas a carne é fraca, como se costuma dizer?....

Um título sem palavras...

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Onde está o 'Deus' de todas estas pessoas, de todas estas famílias... Te todos aqueles que seguiam nas suas viaturas, a tentar escapar das chamas e que sucumbiram a uma que deve ser, provavelmente, das piores formas de se morrer... queimado. O 'Deus' daquelas crianças? Onde estava? Será que foi de férias também?...
Os crentes e beatos deste mundo virão dizer que 'Deus' tem uma explicação para tudo, que tudo acontece por uma razão. Os jovens que morreram, já tinham cumprido as suas funções neste mundo e seguiram para um mundo melhor sem dor. Os idosos já tinham vivido muitos anos e foi melhor assim do que ficarem sem nada... Estas e outras desculpas, atribuídas a uma força maior que serve, em tantas ocasiões de bode expiatório das coisas que não conseguimos (ou não queremos) explicar.
Que 'Deus' é esse, que deixa um flagelo destes acontecer - e poderia falar de tantos outros acontecimentos piores mesmo que o nosso incêndio, mas hoje o tema são os nossos. 
Eu não acredito nesse 'Deus'. 'Deus' não estava cá, esqueceu-se daquelas pessoas, daquelas crianças. Não consigo imaginar o horror que se viveu naquela estrada, no interior de cada carro. Não consigo imaginar o pânico das pessoas, dos pais com os seus filhos nos carros a prever a tragédia que estava prestes a acontecer-lhes... a percepção de que não conseguiriam escapar, a dor. Como deve ter sido horrível. Como está a ser horrível. 
E se uma das explicações dos defensores religiosos é que tudo acontece por uma razão, ou que este trágico acontecimento veio servir para nos alertar que temos que mudar, que temos que cuidar das nossas florestas, dos terrenos, que temos que nos unir... Não houve já tempo, mortes e sofrimento suficiente para se aprender essa lição? Os portugueses já se uniram, outros países já mostraram a sua solidariedade. Não foi já o suficiente? Se 'Deus' existe, porque continua este fogo a deflagrar, a queimar tudo por onde passa?
E no fim de tudo isto, não me venham dizer que é obra do 'Diabo'. 
É obra da natureza, mas a maior mão de obra em tudo isto, é a humana. Do mau planeamento, da má organização, de más decisões políticas e económicas... Não me falem do 'Diabo', muito menos de 'Deus', porque se o meu 'Deus' existisse - esse em que me tentaram fazer acreditar quando era catequista - o meu 'Deus' seria bom. Por isso é que sempre detestei aquilo, porque depressa percebi que este mundo é uma injustiça e que a culpa é nossa, não de forças divinas. Porque essas, deveriam ser a representação de coisas boas (como nos quiseram ensinar).
Isto não é, nada disto é bom. 
Isto é uma merda.
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